Nos últimos anos, tenho acompanhado de perto um número crescente de pessoas e famílias que chegam ao consultório em busca de ajuda por causa do vício em jogos e apostas. O que antes era apenas um passatempo, hoje se transformou em motivo de sofrimento, dívidas e relações fragilizadas.
Essa realidade não aparece só em estatísticas. Ela se manifesta em histórias de jovens que perderam o controle do tempo, casais que se endividaram juntos e familiares que não sabem mais como lidar com a situação. É justamente por estar na escuta desses relatos que decidi compartilhar este conteúdo: para informar, acolher e mostrar que existe saída.
Parece inofensivo, mas te domina!
Tudo geralmente começa de forma leve: uma aposta para se distrair, um jogo rápido depois do trabalho ou uma maneira de aliviar o estresse.
O problema é que o nosso cérebro não lida com isso de forma neutra. Ele responde com dopamina, um neurotransmissor ligado à sensação de prazer e recompensa.
Cada vez que alguém ganha, mesmo que um valor pequeno, o cérebro libera dopamina, trazendo aquela sensação de euforia. É o mesmo que sentimos quando recebemos uma mensagem inesperada ou somos surpreendidos com uma boa notícia. É gostoso, mas também pode se tornar viciante.
A neurociência mostra que o mecanismo mais poderoso por trás disso se chama reforço intermitente: quando a recompensa acontece de forma imprevisível. É exatamente assim que funcionam os jogos de azar e apostas. A pessoa nunca sabe quando vai ganhar e, justamente por isso, o cérebro se mantém preso na expectativa, querendo sempre “mais uma jogada”.
Com o tempo, para sentir o mesmo prazer, a pessoa precisa apostar valores maiores ou jogar por mais tempo. O que começou como lazer acaba se tornando uma necessidade.
Atente-se aos sinais de alerta
Alguns sinais podem indicar quando o jogo ou a aposta já deixaram de ser lazer e passaram a ser um vício:
- Pensar constantemente em jogos e apostas
- Ansiedade ou irritação quando não consegue jogar
- Aumento do tempo ou dos valores apostados
- Mentiras sobre gastos ou horários
- Isolamento social e afastamento da família
- Uso do jogo como forma de fugir de problemas emocionais
- Ilusão que irá enriquecer com os ganhos dos jogos de aposta
- Ter convicção de que é possível fazer dos jogos uma segunda fonte de renda ou até mesmo a renda principal
Se esses sinais se repetem com frequência, é hora de buscar ajuda.
Saiba como o vício afeta a vida no dia a dia
As consequências do vício em jogos e apostas vão além do dinheiro perdido.
Pessoas nessa situação relatam noites sem dormir, ansiedade, crises de irritação e até sintomas de depressão. O desempenho profissional e acadêmico cai, compromissos são deixados de lado e relacionamentos ficam mais frágeis.
Para a família, o sofrimento também é grande. Muitos familiares não sabem quando um ente querido passa horas no celular ou no computador. Parceiros e parceiras enfrentam frustrações, desconfiança e conflitos constantes, isso sem falar no impacto que isso causa nos relacionamentos amorosos.
Reconhecer é o primeiro passo
Assumir que existe um problema é um ato de coragem. Algumas atitudes podem ajudar a aliviar a pressão inicial:
- Instalar no celular bloqueadores de acesso a aplicativos de jogos (como Gamban, Family Link ou Kustodio)
- Escolher uma pessoa de confiança para administrar as finanças e, se possível, não ter acesso direto ao dinheiro por um tempo
- Retomar atividades prazerosas fora do ambiente digital
- Deixar de seguir influenciadores que divulgam jogos de apostas
- Se afastar de amigos ou ambientes que estimulam o jogo
- Conversar com alguém de confiança sobre o que está acontecendo
- Observar de perto os próprios gatilhos
- Acionar a área de Recursos Humanos da empresa caso o problema interfira no trabalho
Essas medidas ajudam, mas não substituem o acompanhamento profissional.
Como buscar ajuda?
A psicoterapia é um dos caminhos mais eficazes. Na clínica, utilizo a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que ajuda a identificar gatilhos, reorganizar pensamentos e construir estratégias práticas para lidar com a vontade de jogar.
Em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico também é indicado, especialmente quando surgem sintomas de ansiedade ou depressão.
Grupos de apoio também têm um papel essencial. Compartilhar experiências com quem passa pela mesma situação ajuda a reduzir a culpa e a solidão.
E a família não pode ficar de fora. Apoio, paciência e informação fazem toda a diferença no processo de recuperação.
3 perguntas comuns sobre o vício em jogos e apostas
1. Estou viciado em jogos e apostas, o que devo fazer?
Reconhecer que existe um problema já é o primeiro passo e, talvez, o mais importante.
O vício em jogos e apostas não se trata de falta de força de vontade, mas de um comportamento que envolve fatores emocionais, biológicos e ambientais. Por isso, buscar ajuda é fundamental.
2. Qual a diferença entre jogar por diversão e ter vício em jogar?
Quando é lazer, o jogo não atrapalha a vida pessoal, financeira ou emocional. No vício, essas áreas começam a sofrer prejuízos claros.
3. Como saber se um familiar tem vício em apostas?
É comum o comportamento de mentiras sobre gastos, isolamento, irritação e prejuízos evidentes são sinais bem comuns em pessoas que perderam o controle da situação.
4. Como tratar o vício em jogos e apostas?
Com ajuda profissional. A terapia cognitivo comportamental (TCC) é tratamento padrão ouro nestes casos. O apoio familiar é fundamental, participar de grupos de acolhimento e, em alguns casos, ter acompanhamento psiquiátrico.
Inicie a mudança
O vício em jogos e apostas não é apenas sobre dinheiro perdido. É sobre saúde, relações, qualidade de vida e esperança.
Sou psicóloga e atuo junto ao Instituto de Apoio ao Apostador (IAA), conduzindo salas coletivas de acolhimento e informação para pessoas que enfrentam esse desafio e para familiares que desejam compreender melhor como lidar.
Também realizo atendimentos individuais online, em um espaço seguro e sigiloso, para que cada pessoa possa compartilhar sua história, receber orientação prática e construir novas estratégias de enfrentamento.
Meu propósito é acolher, informar e apoiar. Quero ajudar quem aposta em excesso a recuperar o equilíbrio emocional e quem convive com essa situação a encontrar caminhos de compreensão e suporte.
Dê o primeiro passo!
Se você ou alguém da sua família sente que o jogo ou as apostas têm trazido mais perdas do que ganhos, saiba que existe ajuda.
Agende sua sessão de psicoterapia online.
Juntos, podemos começar a virar esse jogo.